Postado 11/01/2018

Emoção e razão, quem importa mais na hora de decidir?

Competências para alta performance, Desenvolvimento de Lideranças, Recursos Humanos

A ex-esposa do seu melhor amigo lhe convida para sair e você sabe que ele ainda nutre sentimentos por ela; Você recebe uma proposta de emprego que é o sonho do seu noivo e sabe que isso poderá abalar sua relação; Um amigo lhe pede uma grande quantia de dinheiro para quitar parte de dívidas e você não acredita que ele irá conseguir te pagar de volta; Uma amiga lhe pede para tomar conta de seu filho, porém sua mãe, que terá que ficar com ele parte do tempo, não suporta a criança.

Todos nós corremos o risco de um dia nos depararmos com situações como as descritas acima. Agora diante de uma situação como essas, a melhor coisa é eu ser racional? Ou melhor, seria possível eu tomar uma decisão unicamente racional, sem incluir minhas emoções? Acredito que essa seja a pergunta a ser respondida no livro o Erro de Descartes de Antonio Damasio.

A partir da investigação do famoso caso de Phineas Gage, que ao ter o crânio transpassado por uma barra de metal em um acidente durante a construção de uma ferrovia muda de personalidade, passando de um homem respeitado e de confiança capaz de exercer um papel de liderança na companhia onde trabalhava, a um homem impulsivo, de difícil relacionamento e pouco confiável, o neurocientista português faz uma detalhada explicação do funcionamento do cérebro e das partes afetadas, tanto neste caso como em outros parecidos.

Uma das conclusões que o autor chega é que “a escolha de uma decisão quanto a um problema pessoal típico, colocado em ambiente social, que é complexo e cujo resultado é incerto, requer tanto o amplo conhecimento de generalidades como estratégias de raciocínio que operem sobre esse conhecimento”, incluindo tanto fatores externos quanto internos ligados à sobrevivência. E continua, “as estratégias de raciocínio giram em torno de objetivos, opções de ação, previsões de resultados futuros e planos para a implementação de objetivos em diversas escalas de tempo”.

Em outras palavras para lidar com situações como as descritas acima, além de possuir um repertório de ações, precisamos também de estratégia para escolher, fazer ajustes e correções sobre as ações que constam nesse repertório.

Outra conclusão é que as emoções, fazem parte da nossa “maquinaria neural” e tem um papel fundamental para a sobrevivência e o equilíbrio do organismo.

Damásio entende que as emoções, são alterações globais no estado do corpo orquestradas pelo sistema nervoso em resposta a um pensamento relativo a um fato ou acontecimento. Algumas destas emoções podem ser vistas por todos, como o rubor no rosto, ou o suor na testa, porém outras são percebidas apenas pela própria pessoa, como uma “pontada” no estômago.

Uma terceira conclusão importante para entender como nosso cérebro funciona é que nossos pensamentos são basicamente compostos por imagens, essa afirmação é importante pois o autor define os sentimentos como a experiência das alterações no corpo provocadas pela emoção, quando frente a certas imagens.

Ou seja, quando estamos diante de alguma situação que nos obrigue a tomar uma decisão complexa e de resultado incerto nossa razão, emoção e sentimentos trabalham em conjunto com o objetivo de chegar a uma decisão que seja a mais benéficas para o organismo pessoal e socialmente. As diferentes partes do cérebro envolvidas não trabalham em um sistema de hierarquia, não há partes mais importantes que as outras, a razão aqui não é superior à emoção, elas são complementares e ambas indispensáveis para a tomada de decisão.

Mas como isso acontece? Qual o papel da emoção nesse processo de escolha?

Damásio diz que todo ser vivo nasce “dotado de mecanismos automáticos de sobrevivência e ao qual a educação e a aculturação acrescentam um conjunto de estratégias de tomadas de decisão socialmente permissíveis e desejáveis, os quais, por sua vez, favorecem a sobrevivência – e servem de base à construção de uma pessoa.”
É principalmente nessa construção, no processo de educação e aculturação que as emoções tem um papel fundamental para a tomada de decisões com as quais a pessoa irá se deparar ao longo da vida.

Sua principal teoria é a de que a mente cria marcadores somáticos que nos auxiliam no processo de tomada de decisão, eles fazem uma pré seleção das muitas opções possíveis, sem esse mecanismo seríamos incapazes de decidir, ficaríamos perdidos em um mundo de infinitas possibilidades todas equivalentes entre si.

O neurocientista define marcador somático como um tipo especial de sentimento gerado a partir das emoções e sentimentos que “foram ligados, pela aprendizagem, a resultados futuros previstos de determinados cenários. Quando um marcador negativo é justaposto a um determinado resultado futuro, a combinação funciona como a campainha de um alarme. Quando, ao contrário, é justaposto um marcador positivo, o resultado é incentivo.”

Algumas vezes nos apercebemos desses sentimentos, o famoso “não me sinto bem com essa situação”, mas em alguns casos não, isso não quer dizer que eles deixam de funcionar, apenas passam a funcionar de modo subconsciente o que nos leva à nossa intuição. A tomada de decisão com pouca participação da nossa porção racional.

No caso de Gage assim como dos outros pacientes, o que se perdeu foi a capacidade de utilizar as emoções para a tomada de decisão, seus marcadores somáticos não estavam funcionando, o que impedia que ele tomasse decisões que o auxiliasse a conviver socialmente e até mesmo a sobreviver e prosperar.

Portanto, pode ser que seu marcador diga que a amizade de seu amigo é mais importante e o convite lhe gere tamanho mal estar que você o recuse, por mais tentador que seja. Em outro caso seu marcador pode lhe dizer que a promoção é tudo o que você também quer, e a proposta lhe faça sentir tão feliz que a possível perda do relacionamento seja ponderada como algo menos importante.

Em ambos os casos os marcadores poderiam dizer coisas diferentes, pois dependem do processo de educação e aculturação pelo qual a pessoa passou, mas o que não é possível é dissociar a parte emocional da tomada de decisão, não podemos falar de racionalidade sem envolver os aspectos emocionais presentes nestes tipos de situação.

Isso leva a algumas questões: o quanto estamos dando ouvidos a nossos sentimentos? Será que tomamos decisões mesmo quando nos sentimos mal com elas? Será que conseguimos reconhecer esses sinais que nossos corpos e mentes estão nos passando? Ou os estamos ignorando e anestesiando com remédios, drogas, distrações passageiras, excesso de trabalho, redes sociais e outras?

Não consigo responder sozinho a estas perguntas, só sei que ao final deste texto me sinto bem e por isso continuo a escrever.

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