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Como a Neurociência tem sido usada para difusão do charlatanismo nos negócios e na educação!

 

Durante a Segunda Guerra Mundial os nativos das ilhas do Pacífico Sul presenciaram grande atividade dos aviões americanos trazendo suprimentos para os soldados. Em muitos casos, este foi o primeiro contato de alguns nativos com os bens e a tecnologia do século XX.

Após a guerra quando as operações de embarque de cargas terminaram, alguns dos nativos construíram imitações das pistas de atividades aéreas. Eles construíram torres de controle de madeiras, antenas de rádio de bambu e tochas de fogo ao invés de luzes de sinalização. Aparentemente eles acreditavam que com isto atrairiam mais aviões americanos e suas preciosas cargas.

Este comportamento, ao que parece não é um acontecimento singular. Antropologistas já encontraram exemplos de comportamentos similares ao longo da história em populações insulares. Em seu discurso de graduação no Instituto de Tecnologia da Califórnia em 1974, o físico Richard Feynman usou o conceito para cunhar (criar) a frase "cargo-cult-science" *(a "ciência do culto à carga" (em tradução livre*))

As trilhas do culto à carga aparentavam ser reais, mas não eram funcionais. Do mesmo modo, Feynman usou o termo "ciência do culto à carga" para denominar algo que aparenta ser científico, mas na verdade tem ausência de elementos chaves.

Esta expressão tem sido usada como referência a vários campos pseudo-científicos como a frenologia, programação neurolinguística e em vários tipos de terapias alternativas. Os praticantes destas disciplinas podem usar termos científicos e até mesmo realizar pesquisas, mas seu pensamento e conclusões no entanto são fundamentalmente falhos cientificamente falando.

 

Explorando a ascensão da Neurociência

Temos visto recentemente o grande crescimento da conscientização pública sobre a neurociência. As pessoas têm se interessado mais pelas novas descobertas do cérebro e também em encontrar explicações baseadas no cérebro é algo bem fascinante. Este interesse público levou empreendedores a aplicar ideias neurocientíficas à situações cotidianas.

Esta tendência começou no final dos anos 90 com o "neuromarketing". Mais recentemente houve o envolvimento do uso da neurociência no mundo corporativo e na Educação. Mas assim como na homeopatia e na Frenologia muitas destas aplicações podem ser consideradas como "ciência do culto à carga".

Observe o Instituto Neuroleadership. Fundado em 2007 para "estimular, gerar e compartilhar pesquisas em neurociência que transformassem o modo de pensar desenvolver e agir das pessoas". Em termos gerais, busca aplicar a pesquisa neurocientífica na gestão e negócios.. Publica seu próprio jornal e promove encontros ao redor do mundo, onde proeminentes empresários e cientistas realizam seminários. O custo para a inscrição por dois dias na programação de cúpula é de US$3280 para os não-membros do instituto - este valor é aproximadamente cinco vezes maior do que pode ser cobrado numa conferência acadêmica.

 

Repaginar (Ressignificar) e Revender

A publicação do Instituto Neuroleadership mostra como sua abordagem precisa de maior análise. Veja o exemplo de AGES, modelo de aprendizagem que é publicado no jornal do instituto. AGES significa atenção, geração, emoção e espaçamento. A ideia principal é que o uso efetivo destes quatro domínios em treinamento pode levar a uma aprendizagem mais eficaz.

Por exemplo, "geração" de associações profundas e variáveis, e processamento de material mais elaborado conduz a uma melhor retenção da memória. Isto significa que a palavra "mesa" será muito mais facilmente esquecida se apresentada numa longa lista com outras palavras. Entretanto será facilmente lembrada se o sujeito for convidado a imaginar uma cena elaborada com uma mesa lindamente decorada num restaurante onde todos os garçons são patos antropomórficos. Este é um forte e conhecido efeito psicológico usualmente chamado de "níveis de processamentos", descrito pela primeira vez em 1972.

Espaçamento é a ideia que a informação será mantida melhor se estudada por breves períodos, espaçada ao longo de poucos dias ou semanas ao invés de ser estudada intensivamente num curto período. Este efeito de Espaçamento foi descrito pela primeira vez por Hermann Ebbinghaus em 1885. Nenhum destes efeitos necessita de referência na neurociência para ser relevante.

Ocasionalmente há ainda mais referências sem sentido em relação aos neurotransmissores como a dopamina e a norepinefrina. Parece que todo o conteúdo da Neurociência está ai só para dar um novo e moderno brilho em ideias já conhecidas na Psicologia desde os anos 70. Isto não significa que é uma má informação, mas estas ideias antigas estão sendo lustradas e vendidas como novas.

O Instituto Neuroleadership parece estar vendendo este material com grande sucesso também. O público está impressionado com a neurociência atualmente e grandes empreendedores não possuem formação científica para criticar adequadamente estas ideias. Alguém que se reveste de austeridade acadêmica e promete novos pensamentos baseados na neurociência de ponta se torna muito atrativo.

Outro exemplo particularmente tolo é um artigo recente da Marketing Week intitulado "Neurociência e marketing: o que precisamos saber". Na realidade o artigo contém uma discussão de resultados de experimentos psicológicos sem conteúdo relacionado com o cérebro. Neste caso o termo Neurociência é simplesmente usado para produzir uma manchete em que as pessoas se sintam instigadas a clicar.

 

Aprendizagem baseada no cérebro?

Estas técnicas de marketing não são novas e é difícil ser ético quando um grupo de pessoas busca novas maneiras de criar embustes a um outro grupo. Adicione ainda o crescimento de empresas que têm como alvo pais, professores e escolas usando uma linguagem similar.

Neurociência educacional é um campo próspero, e há excelentes pesquisadores e sem dúvida bem intencionados realizando trabalhos válidos e rigorosos nesta área. Infelizmente há também empresas que querem explorar a falta de experiência e a ansiedade de pais da classe média sobre a escolaridade dos professores.

Usha Goswani diretora do centro de neurociência educacional na Universidade de Cambridge levantou esta questão numa análise em 2006. Ela percebeu que os professores recebiam em média 70 emails promocionais por ano sobre a venda de cursos baseados na aprendizagem cerebral. Muitos deles com uma quantidade alarmante de "desinformação".

Na mesma época o cientista e escritor Ben Goldacre e outros relataram sobre Brain Gym, um programa de exercícios para o cérebro amplamente utilizado nas escolas do Reino Unido como sendo um absurdo ridículo. A Educação parece ser um campo fértil para o desenvolvimento de "neuromitos" e apesar desta crítica, novas variantes floresceram nos últimos anos.

As ideias por trás do Brain Gym continuam vivas numa companhia chamada NeuroNet Learning que oferece certificação do programa para escolas dos Estados Unidos, obviamente desde que eles treinem os professores, implementem o sistema da escola e usem o programa ao menos quatro vezes na semana. O site deles é abarrotado de termos como "aprendizagem motor-perceptual" e "pesquisa baseada em aprendizagem de prontidão". Eles afirmam ainda que esta metodologia é sustentada por centenas de artigos das melhores publicações científicas e prontamente oferecem uma lista. Porém os artigos por eles citados apenas fazem referência indiretas ao programa específico.

Esta é uma tática comum. Muitas destas companhias tem uma página de pesquisas impressionante em seus sites. Numa análise mais rigorosa, consistem apenas em artigos vagamente relacionados com o que eles afirmam.

Outra organização que usa esta tática é a Brain Balance Centers. Uma rede de franquias que expandiu rapidamente por todo Estados Unidos, atualmente com cerca de 70 unidades. As intervenções são totalmente baseadas numa teoria fraudulenta chamada Sindrome da Desconexão Funcional.

A Brain Balance afirma tratar com eficácia déficit de atenção e hiperatividade, autismo e muitas outras questões de desenvolvimento. O tratamento inicial deles de 12 semanas custa US$5,000 . como já foi dito, não há evidências sobre Síndrome da Desconexão Funcional e os fundadores da organização são quiropráticos e não neurocientistas.

No Reino Unido as unidades destas empresas - por exemplo o Accelerate Learnig Centers - não são tão espalhafatosas em seus anúncios, mas eles ainda assim promovem trabalhos sem apoio de evidências. Alguns deles ainda aproveitam a recente tendência da abordagem "mindfulness" (concentração/plenitude mental). O projeto Mindfulness in schools (Plenitude mental nas escolas) oferecem cursos de certificação aos professores objetivando ter sua abordagem nos currículos escolares. Mas infelizmente a discussão sobre a eficácia e os benefícios da plenitude mental ainda está em aberto, ainda mais nas escolas.

 

Um caminho a seguir

A maior preocupação é que estas escolas e os pais se sintam seduzidos por todo estes marketing e acabem por desviar seus parcos recursos para implementação deste tipo de programa. Potencialmente falando outros programas mais tradicionais como - música, arte ou teatro - podem padecer. Paradoxalmente a formação musical é a área onde o "treinamento cerebral" registrou evidências no aprimoramento de várias funções, incluindo a inteligência verbal, espacial e habilidades matemáticas.

Como foi observado por Goswani, há uma lacuna entre neurocientistas, educadores e empresários., que são fascinados pelas pesquisas modernas e estão ávidos em implementar as práticas baseadas no cérebro em seus trabalhos. Alguns cientistas têm tentado diminuir esta lacuna, mas ainda há muito espaço para a "neurociência do culto à carga" para construir suas torres de controles de madeira.

Os cientistas em geral são cautelosos. Somos treinados para questionar sobre nossos resultados, enfatizar as precauções, considerar explicações alternativas e sempre repetir o mantra "é preciso mais pesquisa". É compreensível que os professores e educadores não tenham todo este tempo para estes métodos acadêmicos. Eles querem técnicas funcionais. É esta lacuna que é explorada pelos charlatões. Eles prometem soluções fáceis e rápidas baseadas em pesquisas "comprovadas". Os cientistas precisam refutar mais veementemente estas afirmações, ao mesmo tempo que os educadores e líderes empresarias necessitam ser mais críticos em relação a isto.

Ainda podemos ser otimistas. Uma recente iniciativa da Wellcome Trust iniciou um projeto de Educação e neurociência, destinado a unir cientistas e educadores. Um relatório da Royal Society de 2011 também recomendou a troca de conhecimentos para o preenchimento desta lacuna. Um projeto fantástico recentemente reuniu cientistas e estudantes, Frontiers for Your Minds é um jornal de neurociência escrito por cientistas, porém editado para crianças e por crianças!

Iniciativas como estas definitivamente são um avanço positivo e espero que o espaço disponível para construção de torres de madeiras dos "neurocientistas que cultuam carga" seja cada vez mais diminuto.

 

Fonte: http://theconversation.com/how-neuroscience-is-being-used-to-spread-quackery-in-business-and-education-30342

Traduzido por: Sanny Correia